Segunda-feira, 19 de novembro de 2007
Previdência Social – Agência Pinheiros (Rua Butantã)
Irmãs Marilda (54) e Hilda (56) Souza:
“Ela tem problema na cabeça, por isso que a gente vem aqui pra tentar conseguir alguma coisa pra ajudar”, conta Marilda enquanto ignora os chamados insistentes da irmã Hilda. Sem parar ela repete: “Não fala assim de mim. Tá vendo? Ela fala assim pra todo mundo. Tem que ter paciência comigo, só isso”.
Um certo constrangimento se instaura entre todos que estavam na fila desde as 4 horas da manhã daquela segunda-feira e Marilda decide-se pelo silêncio até que Hilda desiste e se encolhe, sentada num pequeno espaço de chão seco (chovia torrencialmente naquela manhã) entre dois mendigos que dormiam.
Marilda retoma então a explicação: “Não liga pra ela não. Até dizer que vê gente morta ela diz. A filha dela fala que só vai casar quando ela morrer, que não pode com ela. Hoje de manhã, foi a maior gritaria. Ela berrava ‘pra onde você ta me levando? São três horas da manhã!’. É que a gente mora lá no Taboão da Serra, daí pra chegar aqui às 4 horas tem que sair essa hora, né?”.
“Mas porque chegar aqui com toda essa antecedência? A senhora não marcou hora?”, pergunto. “Ah minha filha, ela tinha perícia marcada pras 7h da manhã do dia 16. Mas daí a gente chegou aqui e deu com a cara na porta. Tinha essa plaquinha aí” – diz apontando para um pedaço de papel sulfite com o aviso: Hoje, dia 16 de novembro, esta agência não abrirá em virtude do ponto facultativo. Qualquer dúvida ligue 135 ou consulte o site da Previdência Social – “daí tinha uma moça por aqui, fazendo limpeza, eu acho. Ela disse que se a gente não chegasse hoje antes das seis a gente não seria atendido. ‘Ligue 135’! Isso aí não adianta nada viu, não serve pra nada”.
Nesse momento, várias pessoas da fila (que, às 5 horas, já eram por volta de trinta) mostraram concordância, tiveram suas perícias marcadas para um dia em que o posto não abriria e não receberam nenhuma notificação disso.
Marilda, que tinha aproveitado o momento que eu passei distraída ouvindo algumas outras pessoas da fila para contar mais algumas histórias da doença de Hilda, diz: “sexta-feira às três horas ela já estava me atazanando perguntando ‘Você vai me levar no casamento do Robson né? Com que roupa eu vou na festa?’, pode? O meu filho missionário casando com essa moça linda lá da Suíça e eu vou levar a louca ai!”.
Hilda continuava no chão, agora em posição quase fetal, mas sorria sempre quando olhava para mim, ainda mais quando ouvia Marilda falando dela, com uma espécie de cumplicidade que parecia às vezes infantil, às vezes extremamente consciente de sua situação.
“Mas dona Marilda, porque a senhora chegou aqui às três horas na sexta? Vocês não tinham horário marcado?”, pergunto me lembrando do que ela tinha dito antes. Dona Marilda muda, fica extremamente nervosa. “Esses filhos das... eles não servem pra nada! A gente tem que chegar aqui cedo pra garantir, senão eles não atendem! Se chega na hora marcada da perícia, já viu...”.
Já são sete horas e o posto abre. Marilda e Hilda entram, direcionadas por uma funcionária: “tem perícia marcada?”. “A gente tinha pra sexta-feira e...”. Ela vira os olhos, faz cara de enfado. “Fila à direita”.
Menos de dez minutos depois, as duas irmãs já estão saindo do posto. Enquanto Marilda esbraveja (“Marcaram a perícia para o dia 16 de dezembro, pode? Filhos das... A gente precisando e só vai fazer a perícia um mês depois da data marcada. Um mês!! Gente ruim!”), Hilda insiste: “É, eu só melhorei quando trocaram o meu psiquiatra lá no posto. Agora é uma moça muito boazinha. É porque ela me ouve, me ouve muito viu? Daí eu rio, e ela ri, eu rio, e ela ri...”.
Damião Arruda (36):
“Bom dia. Eu posso conversar com o senhor um minutinho?”. Olhando para os lados como quem esconde, Damião pigarreia e responde: “Po-po-pode, claro”. Seu walkie-talkie não pára, ele trabalha como segurança nesse posto há sete meses. Quase ninguém nota sua presença; apenas os mendigos que dormem atrapalhando a entrada; esses ele eventualmente cutuca pedindo para que saiam, mas não insiste muito.
“Ah moça, o trabalho aqui é be-be-bem tranqüilo vi-viu. Se bem que de vez em quando dá briga, tem que chamar até a polícia. É que tem uns médicos casca grossa aqui no posto, só dão benefício se o cidadão tiver quase mo-morto. Tá vendo aquela paraibana ali? Aquela de cabelo cu-curtinho?” – diz apontando nada discretamente para uma mulher de jaleco no fundo do posto – “aquela é coisa ruim, não tem pena de ninguém! Outro dia quase que leva uma facada dum cara invoca-cado”. O walkie-talkie, que já fazia barulho há um tempo, agora chama a atenção de Damião, que fala alguma coisa desconexa nele e desliga.
“Mas sabe, o povo não pode mesmo é desistir, é direito deles né! É pra isso que serve. A gente paga imposto a vida inteira pra na hora que precisa não receber auxílio? Isso não pode não. Não pode desistir. O problema é que aqui ninguém se importa, pra eles não faz diferença dar o benefício ou não porque eles tão com o salário garantido, não tem fiscalização... Daí quem acaba sendo punido são as pessoa que precisam. Eu já vi muita gente chegar aqui de mu-muleta, conseguir auxílio e depois sair andando no-no-normal! Daí quem precisa mesmo fica sem”.
Uma mendiga chega, bêbada, dizendo que roubamos o espaço dela: “É aqui que eu durmo!”, grita. Saímos para que ela possa se deitar no chão encharcado. Eu aproveito para perguntar se o novo sistema de agendamento da Previdência realmente funciona e Damião explica: “ah, funciona sim. Tendo hora marcada para perícia é só chegar meia hora antes que eles atendem normal”. “Mas então porque a fila de madrugada?”. “Isso aí é bobagem do povo... eles ficam ansiosos porque têm medo de não conseguir a ajuda que precisam né? Então acabam fazendo um monte de coisa que não precisa. Chegar de madrugada, vir pra ‘dar entrada’... nada disso precisa. É só ligar pra agendar. Tem dia até que fica vazio”.
Damião se despede. Está sendo chamado lá dentro e vai ser um longo dia: todos os atendimentos já estão com mais de duas horas de atraso devido a uma ‘queda do sistema’.
Otávio Corrêa Moreira (59):
“Esperar INSS com essa chuva é triste...”, Otávio se aproximou e, sem que eu precisasse perguntar nada, começou a falar: “Quando eu estive na Europa a coisa que mais me chamou a atenção foi a pontualidade. Imagina se eles vêem isso aqui: minha mulher com perícia marcada para as 7 horas, já são 8h30 e nem pela triagem ela passou ainda! Isso porque nós chegamos aqui 5 horas da manhã! Eles tão falando que o sistema caiu ou qualquer coisa assim...”.
“Mas porque chegar aqui com tanta antecedência se a esposa do senhor tinha hora marcada?”, pergunto finalmente. “Rá! Eles falam isso de marcar hora, mas o atendimento é mesmo por ordem de chegada porque ninguém vai para a perícia sem ter passado pela triagem e pegado senha e isso é feito por ordem de chegada. Se a gente chega em cima da hora e tem fila, perde a vez. Quer dizer, essa fila nem devia existir, mas com esse nível de atendimento e a falta de fiscalização desses funcionários públicos quem quer explicar para essas pessoas como funciona mesmo o sistema? Eles querem que o povo desista... só o povo é punido! Pode ver, a maior parte das pessoas que ficam horas nas filas acabam nem sendo atendidas”. Era verdade.
Depois de um silêncio de alguns minutos: “Se eu tivesse percebido quando eu era jovem hoje eu não seria autônomo... O negócio é ser funcionário público, dá mais conforto e segurança né?”.
Teresinha (44):
“Ai moça, como é que eu vou fazer, como é que eu vou fazer?”. Pensei que ela falava da chuva, então ofereci meu guarda-chuva. Não falava. “Agora eu to com perícia marcada pro dia 13 de dezembro! Eles vão ter que me atender! Eles vão ver só se eles não me atenderem!”.
“Qual o problema do dia 13?”, pergunto com um pouco de receio. “Acontece que nesse dia eu tenho uma operação marcada lá no posto de Osasco. Ainda por cima bem pro mesmo horário da perícia! Mas eu já sei o que eu vou fazer: eu vou lá, me opero e venho direto pra cá! Quero só ver eles não me atenderem!”.
“Mas como foi que aconteceu isso? Eles não tinham outra data para a perícia?”. Agora ela falava baixo, muito baixo, e o barulho do trânsito na rua quase não me deixava ouvir o que ela dizia. “Ah! Eu tinha perícia pro dia 16, mas eles não abriram né? Daí eu vim aqui hoje e eles não quiseram me atender. Disseram pra remarcar pro dia 20 de dezembro! Mas isso eu não queria não... Então eu chorei, chorei e consegui que ela marcasse pro dia 13”.
Ficamos por alguns minutos em silêncio vendo os ônibus que passavam e atiravam água das poças num mendigo que dormia ali. Ela tira uma pastinha daquelas de congresso dos farmacêuticos de Ibiúna de dentro da mochila e me mostra uma quantidade imensa de remédios, todos ‘tarja preta’, que ela pegou no posto “só pra garantir”. “O que é que a senhora tem?”. A pergunta, como uma espécie de código que libera a história de vida dessa senhora, fez com que ela começasse a contar todos os seus problemas, de saúde ou não, numa ânsia por ser ouvida mais ou menos igual à de todos que encontrei por ali. “Sabe, apareceu um calombo... a minha perna... o meu marido tem problema na cabeça... o meu filho Deive nasceu prematuro... cinco meses que eu não pago o aluguel... minha mãe vem morar mais eu...”. Os ônibus não queriam ouvir mais essa história.